O Garoto - Parte 2



Minha cabeça latejava quando eu abri os olhos. O sol brilhava através da janela. Deus! Eu havia dormido e não sabia. Que horas seriam? Estava claro que já era o dia seguinte, e eu lembrava muito bem que, no momento em que devo ter começado a dormir, a noite mal começava a cair. Levantei-me com algum esforço, e ao fazê-lo, dei-me conta que estava faminto. A água do banho havia secado em meu corpo, auxiliada pelo ar refrigerado que fazia com que eu me sentisse gelado e, entre os dedos de meus pés, uma incômoda sensação me levou a esfregá-los com vigor. Não se podia negar, contudo, que o carpete da casa aquecia bem meus pés, e eu os esfreguei avidamente sobre o mesmo, caminhando a passos arrastados – e angustiados – pelo cativeiro. Cheguei a pensar em rolar sobre o chão acarpetado a fim de me esquentar, mas me contive: de uma certa forma, ocorreu-me que o gesto poderia sugerir que eu estava me rebaixando demais e apresentando um desespero ainda prematuro. Pela janela, olhei a vida lá fora. Pensei em meu filho. Lembrei-me de meu último namorado – eu não estava mais com ele, no momento não tinha ninguém. Encostei-me na parede acarpetada, encolhi-me e fechei os olhos, rezando e – sem ter outra opção – aguardando o que iria acontecer.

Estava nessa posição quando a porta se abriu.

O garoto entrou. Estava acompanhado de dois homens adultos, de terno e óculos escuros. A posição de ambos – um de cada lado do rapaz, posicionados um passo atrás do garoto – deixava claro que eram os seguranças dele. Ele se aproximou lentamente, como num palco, curtindo a cena. Estava elegante, de camisa social amarela desabotoada até dois centímetros acima do umbigo e um blazer de tweed por cima, expondo o peito cabeludo. Uma calça jeans de uma tonalidade diferente de azul, tendendo mais para o cobalto, e os pés finos e compridos calçando chinelos revelavam um estilo desafiador, como de quem estaria esnobando e até mesmo desprezando a moda.

O garoto olhava fixamente para mim, sorrindo cinicamente, os dentes grandes e amarelos destacando-se na face emoldurada pela barba por fazer. Eu o fitava, encolhido, sentado em posição fetal. Estava choroso e sabia que meu olhar expressava desespero.

Ainda como o ator que vivencia seu grande momento durante uma peça, o garoto parou dois passos a minha frente. Seu gesto seguinte foi inacreditável: ele me estendeu a mão e perguntou:

– Como vai?

Inteiramente sem ação, apertei silenciosamente a mão dele, trêmulo. A seguir, sem olhar para trás, o garoto estalou os dedos e disse, em tom formal e imperativo.

– Fabiano.

Um dos seguranças deu as costas e se retirou do local. O outro levou uma das mãos para trás, descansando-a na linha traseira da cintura, sob a base de seu terno. Estaria segurando uma arma? Fabiano voltou com um pacote volumoso e me entregou. A logomarca indicava ser que aquele pacote era oriundo de uma confeitaria fina. Eu o abri. Era um café da manhã de primeiríssimo nível. Na situação na qual eu me encontrava, não havia razão para me fazer de rogado. Devorei avidamente a caixa de suco, o café com leite na garrafa térmica, os doces e pãezinhos.
 
Estava tão concentrado na comida que só depois dos primeiros cinco minutos é que finalmente observei algo:

Enquanto eu devorava a comida o garoto se masturbava.
Ele havia aberto o zíper do jeans azulão e colocado para fora a gigantesca banana com que a natureza lhe havia provido. O garoto se masturbava e sorria, dentes e pênis rivalizando em gigantismo e ambos à mostra. Ontem, no banho, tal pirocão me parecera uma visão do paraíso. “Vinte e três centímetros. E sete milímetros.”, ele me havia dito. Hoje...

Hoje, com revolta e raiva de mim mesmo, eu descobria que aquela piroca imensa – maior que a minha – continuava a me fascinar. Mas não da mesma forma, não com a mesma intensidade: para preocupação minha, a fascinação que eu sentia havia até mesmo aumentado. Eu desejava aquele pau.

Eu desejava o Garoto.

Os seguranças haviam se afastado um pouco, e, sentados em cadeiras portáteis que eu nem percebi de onde vieram, recostavam-se na parede, parecendo descansar, sem acompanhar a cena. O garoto era franzino, mas eu não era tão ingênuo a ponto de tentar algo. Sei muito bem que, se o fizesse, Fabiano e o outro – que provavelmente estariam armados – me fariam pagar muito caro por minha tentativa.

Sem interromper a masturbação, mas percebendo que eu observava enquanto ele acariciava seu próprio pau, o garoto enfiou a mão livre no bolso da calça e me jogou uma chave.

– É a chave do cadeado que abre a cama. Abra-a. – ordenou.

Submisso a meu carcereiro, peguei a chave que caíra a meu lado e esbocei um gesto de levantar-me.

– Termine de comer, primeiramente. – novamente ordenou o garoto, sem nenhum outro gesto que não o de continuar manuseando seu enorme pau.

Obedeci, claro. E confesso que, nesse particular, com alguma satisfação.

Alguma satisfação, sim. Porque, para minha revolta, a verdade é que eu queria novamente saborear o corpo desse garoto.

Saciado, momentos depois concluí minha refeição. Estava ótima, há tempos eu não comia tão bem. Mas não disse muito obrigado nem nada parecido. Naquela situação, agradecer pareceu-me algo ilógico e incoerente.

Enquanto eu limpava a boca com um guardanapo – de linho – que viera no pacote, o garoto tirava o blazer. Ao fazê-lo, inclinou-se para a frente da cintura para cima, expondo (intencionalmente?) ainda mais o seu peito inacreditavelmente peludo. Abri o cadeado e libertei a cama, colocando-a na posição horizontal. O pau enorme do garoto continuava fora da calça, enquanto ele desabotoava a camisa amarelona e jogava para longe os chinelões. Eu o olhava extasiado, já deitado na cama, ansioso (para melindre meu) por tê-lo novamente em meus braços. O garoto tirou a calça, e em seguida a cueca, aproximando-se em passo marcado – similar, mas não igual, ao de quando entrara na casa – e deitou na cama, subindo sorridente em cima de mim. Para deixar bem claro a ordem das coisas, Fabiano levantou-se da cadeira na qual estava sentado e atravessou o recinto, encostando-se na parede a poucos metros da cama, especialmente atento a nós dois. Foi a vez dele colocar o pau para fora e começar a se masturbar.

O outro segurança continuava no mesmo local, sentado na cadeira encostada na parede oposta, porém seu gesto foi inconfundível: observei nitidamente – o que, evidentemente, era o que ele, o Garoto e Fabiano queriam – quando, sem se levantar, o segurança tirou uma pistola das suas costas e a colocou no bolso da calça. Com a maior naturalidade, sem emitir nenhum som e sem esboçar nenhum outro gesto.

Minha única reação foi, de certa forma, infantil, mas que expressava bem meu estado de espírito naquele momento. Perguntei ao Garoto:

– Quando vou sair daqui?

O Garoto me calou com um beijo. Que eu recebi e devolvi com paixão. Estávamos nus sobre a cama, e nada mais me importava. Independente de tudo o que estava acontecendo, a verdade é que eu não conseguia resistir a ele. Entregamo-nos com paixão.

Eu devorava cada pedaço daquele corpo. Meus dentes exploravam avidamente aquele peito cabeludo, literalmente devorando mechas inteiras daquela deliciosa cabeleira que enfeitava seu tórax. Minha língua percorreu seu ombro, deslizando por uma das raras áreas de seu corpo que não possuía pelos, e a lisura da pele que revestia sua omoplata revelou-se o equivalente a um staccato musical, daqueles que sucedem os intensos acordes de uma ária de grande emoção e antecedem outra de igual intensidade – isso porque, após minha língua percorrer a floresta de seu tórax e o mármore de sua omoplata, saboreei a axila mais cabeluda que eu jamais vira em toda a minha vida. Minhas bolas ardiam, meu pênis parecia uma pedra, e eu sentia latejar entre minhas pernas, fazendo-me crer que iria explodir. Enquanto isso, a boca do garoto lambia meus mamilos, e seus gemidos não deixavam dúvidas quanto ao desejo que meu parceiro sentia por mim. Nos amávamos, ambos. Nos desejávamos, ambos. Era um momento de entrega recíproca, encarcerado e carcereiro entregues à mesma sintonia, se amando com igual paixão – e nada mais importava naquele momento. Meu Garoto me acariciou, tocando e beijando cada detalhe de meu corpo, enquanto meus dedos percorriam suas pernas peludas, sua bunda sensual, seu enorme pênis tão duro quanto o meu e seu saco fenomenalmente grande, vermelho, que, se na véspera, debaixo d’água, pareceu-me uma pera, agora, pelo formato e gigantismo, assemelhava-se a um pequeno melão. Foi com avidez e paixão que, enquanto recebia seus beijos em minhas orelhas e nossas barbas se esfregavam, eu segurei firmemente aquele saco.

Naquele momento, meu pau não aguentou mais de tesão, e o esperma saiu de dentro de mim como uma explosão atômica. Eu sentia o prazer absoluto, o êxtase perfeito.

Mas meu Garoto me repeliu: retirando minhas mãos de sua bolsa escrotal, afastou-se ligeiramente, e, embora ainda estivesse sobre mim, nossos corpos não se tocavam mais – ereto sobre mim, uma perna de cada lado do meu corpo, o garoto me encarava, sério.

Haveria um quê de irritação em seu olhar? Teria ele se incomodado por eu haver atingido o orgasmo antes dele? E era impressão minha ou Fabiano, pau de fora, haveria se movimentado estranhamente? Sem entender nada, minha primeira recordação fora a arma do outro segurança. Temi que o garoto mandasse me matar. Olhando sério para mim, ele disse algo:

– Vamos embora. Fabiano.

A primeira frase fora dita de modo geral a todos. A última, diretamente ao segurança, em tom inegavelmente imperativo. Nesse momento, como se automaticamente eu voltasse à realidade, após haver saído dela (e, sim, de certa forma pode-se dizer que eu realmente havia saído, e muito), observei a cena ao meu redor: Fabiano se masturbava, era nítido que passara todo o tempo de minha relação com o garoto fazendo isso, sua pica rosada exposta, fora do terno, enquanto o outro segurança permanecia sentado no mesmo lugar, agora adotando uma postura mais relaxada e menos formal, reclinado em excesso na cadeira portátil, a perna direita cruzada em quatro sobre a esquerda.

O garoto demonstrava estranheza em seu olhar, como se eu houvesse feito algo errado. É, provavelmente, ele não havia gostado de me ver atingido o orgasmo antes dele. E havia dado uma ordem a Fabiano, naquele momento em que citara o nome dele. Uma ordem que eu logo constatei qual era.

Fabiano retirou uma algema do bolso da calça, e com ela prendeu meu tornozelo esquerdo à grade da cama.

Meu Garoto havia saltado da cama e já se vestia. Ao fazê-lo, percebi uma ligeira demora em colocar a calça e afivelar o cinto – seria como se tal gesto representasse o definitivo encerramento de nossa relação. A camisa amarela e o blazer, porém, foram colocados com notável agilidade, e é claro que chinelos não apresentam dificuldades em serem calçados.

– Vou ficar muito tempo aqui, ainda? – indaguei, novamente com um tom de voz que não haveria como não sair infantil.

Sem emitir palavras, o Garoto olhou mais uma vez para Fabiano, e seu olhar representava uma nova ordem.

Ao recebê-la, Fabiano começou a se despir. Ficou inteiramente nu, tirando inclusive a cueca preta, as meias e sapatos da mesma cor. Apenas os óculos escuros permaneceram sobre seu corpo – além de um pequeno brinquinho que brilhava em sua orelha, e que só agora eu percebia.

Já inteiramente vestido, o garoto olhou para mim e sorriu. Nesse momento, e somente nesse momento, ele realmente voltou, em postura, gestual e movimentos, a ser o pós-adolescente que eu vira na lanchonete, há menos de vinte e quatro horas atrás.

– Nós já vamos. Essa roupa é sua. Não a recuse. É um presente pelos ótimos momentos. A porta vai ficar aberta.

Em seguida você pode ir. Sem conseguir emitir palavras, movimentei meu tornozelo acorrentado. Demonstrando não haver percebido meu gesto, ou fingindo não o perceber, o Garoto veio até mim e me deu um último beijo. Um beijo intenso, apaixonado, e que culminou com uma pegada forte no meio das minhas pernas. Esbocei uma tentativa de retribuir tal gesto, mas o som da arma do segurança anônimo fez com que eu interrompesse sumariamente meu procedimento. O Garoto sorriu, um sorriso curiosamente repleto de tristeza e se afastou de mim me contemplando, sem se voltar antes dos primeiros três passos. Em seguida, dirigiu-se à porta de saída, secundado pelos dois seguranças, Fabiano inteiramente nu.

Fiquei olhando, pasmo, o Garoto ir se retirando da casa, até que ele parou no meio do caminho e, em uma manifestação de surpresa que evidentemente era dissimulada, emitiu um caprichado “Ah”! Meteu a mão no bolso e jogou-me uma pequena caixa de vidro. Eu a peguei no ar.

– É a chave da algema. Como disse, a porta vai ficar aberta.

Ao dizer essa última frase, a meio caminho da saída e já de costas, o Garoto dirigiu parcialmente o rosto em minha direção. Isso me permitiu ter uma visão clara de seu perfil, e é irônico como, com isso, minha última lembrança do Garoto acabaria sendo exatamente a primeira, naquele encontro involuntário na lanchonete: o nariz descomunal, um imenso triângulo isósceles no meio de seu rosto.

Fiquei olhando hipnotizado aquele narigão até a porta se fechar e eles saírem. Minha primeira reação foi um mero piscar de olhos e, como um clique cerebral, eu senti dentro de mim que uma etapa se concluíra. Olhei minha mão. A caixa de vidro realmente continha uma chave dentro. Eu a quebrei, peguei a chave e aproximei-a da fechadura da algema. A mesma abriu-se com facilidade. Levantei-me e peguei a roupa que Fabiano deixara, jogada no chão. Era nítido que ele possuía um físico semelhante ao meu. Vesti o terno. “Ele deve ter vestido minha roupa”, pensei. “Não seria louco de sair pelado por aí.” Ao entrar no prédio, sem sequer desconfiar do que iria me acontecer, eu observei que só havia um apartamento por andar – ao menos naquele andar, e o tal Fabiano poderia muito bem ter se vestido no corredor.

Mas nada disso me interessava. Terminei de me vestir, agradecendo a Deus pelo fim daquele pesadelo e por aquela roupa me servir. Com uma pressa indescritível, dirigi-me até a porta do imóvel. Ela realmente estava aberta, e eu saí. Não seria surpresa alguma se meu suspiro de alivio houvesse sido ouvido até mesmo na portaria daquele prédio de catorze andares.

Fabiano não vestira minha roupa: esta se encontrava ao lado da porta, do lado de fora, cuidadosamente dobrada. Sobre ela, minha carteira, as poucas moedas que eu ainda tinha, meus documentos e meu celular. Mas essa não fora a última surpresa que eu ainda viria a receber.

Desci os catorze andares de escada, ignorando completamente o elevador, e dei um pulo de alegria quando cheguei à rua. Lá, chequei meu celular, curioso de saber se alguém havia dado pela minha falta – o que, na verdade, seria inviável, pois o angustiante mas exíguo tempo da ação dificilmente permitiria que alguém me tomasse por desaparecido ou algo que o valha.

No celular havia uma única mensagem, enviada poucas horas antes, naquele mesmo dia. Dizia assim:

Prezado Senhor: Seu currículo foi recebido e aprovado por nosso departamento de RH. Por favor, compareça a nossa sede amanhã, às 09 horas, com toda a documentação, para início imediato.
 
A mensagem se concluía com o endereço da sede e era assinada por uma grande empresa, uma das maiores do país, e que ofereceria uma baita remuneração – a melhor que estava sendo oferecida dentre todos os lugares onde eu deixara currículos.

No dia seguinte, já estava trabalhando. Por tudo o que eu havia passado nos últimos meses e principalmente nas últimas vinte e quatro horas (na verdade, vinte e duas, vinte e três no máximo), dediquei-me a meu trabalho com todo o fervor do mundo. Meu chefe e meus colegas me admiravam e em pouco tempo obtive minha primeira promoção. Completei um ano de empresa alcançando o posto de supervisor sênior. No aniversário de dezesseis anos de meu filho, comprei para ele o melhor tênis do mercado e ainda zoei com ele, indagando de que adiantaria ter comprado um tênis no ano anterior se hoje o mesmo já estaria pequeno nele. Minha ex-esposa foi me visitar na empresa, com um corte de cabelo similar a que usava quando nos conhecemos e um perfume que fora o meu favorito quando namorávamos; ela me convidou para um jantar a dois – que eu recusei, delicadamente.

Paguei cada centavo que devia a meu irmão, e, poucos meses depois, ele foi me visitar na empresa – estava mal barbeado, suado e com um olhar que expressava nada menos que pânico: aplicara mal um dinheiro na Bolsa, estava falido e correndo risco de ser preso se não repusesse alguns milhões em menos de vinte e quatro horas. Nunca vou esquecer o fato de ter visto meu irmão de joelhos na minha frente, suplicando auxilio. Conversei com meu chefe e ele imediatamente levantou a quantia, deixando claro: “Só estou fazendo isso porque é por você”. Meu irmão não corre mais risco de ser preso, mas passará os próximos anos me pagando o empréstimo. Ele conseguiu um emprego modesto e já está subindo na mesma. Fico feliz por isso, é meu irmão e eu o amo.

Mas o melhor de tudo foi ter conhecido Sândalo.

Sândalo é um filho de budistas prestes a sair da casa dos trinta, dotado de uma barba cerradíssima. Trabalha comigo na empresa. Nos apaixonamos literalmente à primeira vista – ou seja, desde a primeira vez que nos vimos. Agora, estamos prestes a nos casarmos. Estou comprando um bom apartamento e ele irá morar comigo.

Creio que minha história termina aqui. Nesse momento, a noite começa a cair e eu estou na empresa, entrevistando candidatos a vagas na firma e que, espero, tenham a mesma oportunidade e a mesma felicidade que eu tive no último ano. Após atender o último candidato, que está aguardando na sala de espera, pretendo comprar uma garrafa de vinho e depois ir diretamente para meu novo apartamento e para os braços de Sândalo, que já está lá fiscalizando algumas obras. Animado, faço entrar logo esse candidato.

Meu sangue gela. Eu o reconheço imediatamente. É Fabiano, o segurança que acompanhara o garoto aquela tarde no apartamento e que saíra pelado. Deus, eu saí de lá vestindo o terno dele – um terno que há meses eu doei para a caridade.

Fica claro pelo meu semblante que eu o reconheci. Como também fica claro pelo dele que ele também me reconheceu.

Com um gesto trêmulo, eu o convido a sentar na cadeira a minha frente. Ele obedece, nitidamente percebendo que não haveria possibilidade alguma de ser contratado – o que é a pura verdade, posto que estava envolvido em um sequestro. Olho seu currículo, diga-se de passagem muito bom, e constato que, obviamente, seu nome está lá: Fabiano Melo Dias. Claro que isso não quer dizer nada – quantos Fabianos não existiriam em São Paulo?

– Você está desempregado há muito tempo, Fabiano?

Ele parece que vai chorar.

– Há oito meses. Estou sem nenhum dinheiro no bolso. Tenho um filho para sustentar, ele está com fome.

Eu olho seu currículo. Que é realmente muito bom. Fabiano já está chorando.

Eu realmente não posso contratar alguém que eu sei que participou de um sequestro. E só eu sei da participação de Fabiano em um.

– Traga sua documentação amanhã e leve ao setor de RH, Fabiano. Para início imediato.

Sua reação foi inteiramente inesperada: ele pegou minha mão e a beijou. 

– Obrigado. Muito obrigado. Você não vai se arrepender. Vou ser o melhor funcionário daqui, pode ter certeza.

E a verdade é que eu sei que seria mesmo. Levantamo-nos juntos, separados pela minha mesa. Nos encaramos, nossos lábios insinuando um leve balbuciado, ele aguardando que eu perguntasse, eu lutando contra minha vontade de perguntar.

– Que fim ele levou? – perguntei.

E, antes que ele pudesse responder, acrescentei nostalgicamente, com um leve sorriso carregado de boas lembranças:

– Foi tão bom. E acabou de forma tão abrupta... não entendi porque ele quis encerrar tudo tão rápido, de uma hora para outra... pode não parecer, mas eu gostei. – agora, eu já não podia controlar minha aflição: – que fim ele levou? Por que ele encerrou tudo tão rápido?

Fabiano respirou fundo antes de responder: – Ele terminou rápido porque você tocou no saco dele.

Eu não controlei uma risadinha de incredulidade.

– Quê? 

E, sem saber o que dizer: 

– Ele tem um sacão. Eu nunca vi um tão grande! Parecia uma pera, um melão, sei lá.

– Ele não podia ter o saco tocado. Ele tinha câncer nos testículos. 

Eu gelei com essa revelação, e mais ainda com o que Fabiano disse em seguida: 

– Ele... morreu dois meses depois. Eu estava inteiramente imobilizado. 

Fabiano agora chorava copiosamente. 

– Eu era amante dele. Eu o amava. O outro rapaz foi o primeiro namorado dele. Ele queria viver uma grande aventura antes de morrer e você... o senhor, claro... pareceu para ele o parceiro ideal – ou a vítima, dependendo do ponto de vista. Ele me disse que tudo o que aconteceu naquele dia foi criado na hora, no calor do momento, ele nunca tramou nada. Depois de deixar o senhor trancado ele nos recrutou para auxilia-lo na molecagem. Ele só queria se sentir como um anti-herói do cinema, criar uma cena estilo mafioso, e utilizou você... o senhor para isso. Era uma brincadeira de um moleque de dezenove anos que sabia que ia morrer, doutor. 

Não era só o Fabiano que chorava. Eu também, e ouso dizer que chorava ainda mais que ele. Estendi-lhe a mão.

– Você começa amanhã, Fabiano.

 – Prometo que vou ser um funcionário eficiente e leal, doutor. Obrigado. – e saiu de minha sala.

Eu ainda fiquei mais um minuto. Precisava me refazer do choque. Fiz uma prece pelo garoto. Em seguida, a faxineira bateu na minha porta. Educadamente, ela perguntou se poderia fazer a limpeza. Eu disse que sim, levantei-me e saí. Minha cabeça estalava de dor. Súbito, eu me dei conta que havia perdido a ordem das coisas e não sabia o que iria fazer agora. De repente, lembrei: Sândalo estava me esperando em casa. Meu Deus, o vinho.

Autor: Carlos Dunham


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